BLOG DO HUD.: Vidas Secas - Capítulo 1 - Mudança calcanhares

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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Vidas Secas - Capítulo 1 - Mudança

NA PLANÍCIE avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala.
Arrastaram-se para lá, devagar, Sinha Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás. Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.
- Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai. Não obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o pequeno esperneou acuado, depois sossegou, deitou-se, fechou os olhos. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto não acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo.
A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas.
O vôo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos. - Anda, excomungado.
O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário - e a obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde.
Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos, fazia horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés.
Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a idéia de abandonar o filho naquele descampado. Pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e suja, irresoluto, examinou os arredores. Sinha Vitória estirou o beiço indicando vagamente uma direção e afirmou com alguns sons guturais que estavam perto. Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostados no estômago, frio como um defunto. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena. Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato. Entregou a espingarda a Sinhá Vitória, pôs o filho no cangote, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos como cambitos. Sinhá Vitória aprovou esse arranjo, lançou de novo a interjeição gutural, designou os juazeiros invisíveis.
E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num silencio grande.
Ausente do companheiro, a cachorra Baleia tomou a frente do grupo. Arqueada, as costelas à mostra, corria ofegando, a língua fora da boca. E de quando em quando se detinha, esperando as pessoas, que se retardavam.
Ainda na véspera eram seis viventes, contando com o papagaio. Coitado, morrera na areia do rio, onde haviam descansado, a beira de uma poça: a fome apertara demais os retirantes e por ali não existia sinal de comida. Baleia jantara os pés, a cabeça, os ossos do amigo, e não guardava lembrança disto. Agora, enquanto parava, dirigia as pupilas brilhantes aos objetos familiares, estranhava não ver sobre o baú de folha a gaiola pequena onde a ave se equilibrava mal. Fabiano também às vezes sentia falta dela, mas logo a recordação chegava. Tinha andado a procurar raízes, à toa: o resto da farinha acabara, não se ouvia um berro de rês perdida na catinga. Sinha Vitória, queimando o assento no chão, as mãos cruzadas segurando os joelhos ossudos, pensava em acontecimentos antigos que não se relacionavam: festas de casamento, vaquejadas, novenas, tudo numa confusão. Despertara-a um grito áspero, vira de perto a realidade e o papagaio, que andava furioso, com os pés apalhetados, numa atitude ridícula. Resolvera de supetão aproveitá-lo como alimento e justificara-se declarando a si mesma que ele era mudo e inútil. Não podia deixar de ser mudo.. Ordinariamente a família falava pouco. E depois daquele desastre viviam todos calados, raramente soltavam palavras curtas. O louro aboiava, tangendo um gado inexistente, e latia arremedando a cachorra.
As manchas dos juazeiros tornaram a aparecer, Fabiano aligeirou o passo, esqueceu a fome, a canseira e os ferimentos. As alpercatas dele estavam gastas nos saltos, e a embira tinha-lhe aberto entre os dedos rachaduras muito dolorosas. Os calcanhares, duros como cascos, gretavam-se e sangravam. Num cotovelo do caminho avistou um canto de cerca, encheu-o a esperança de achar comida, sentiu desejo de cantar. A voz saiu-lhe rouca, medonha. Calou-se para não estragar força.
Deixaram a margem do rio, acompanharam a cerca, subiram uma ladeira, chegaram aos juazeiros. Fazia tempo que não viam sombra. Sinha Vitória acomodou os filhos, que arriaram como trouxas, cobriu-os com molambos. O menino mais velho, passada à vertigem que o derrubara, encolhido sobre folhas secas, a cabeça encostada a uma raiz, adormecia, acordava. E quando abria os olhos, distinguia vagamente um monte próximo, algumas pedras, um carro de bois. A cachorra Baleia foi enroscar-se junto dele.
Estavam no pátio de uma fazenda sem vida O curral deserto, o chiqueiro das cabras arruinado e também deserto, a casa do vaqueiro fechada, tudo anunciava abandono. Certamente o gado se finara e os moradores tinham fugido.
Fabiano procurou em vão perceber um toque de chocalho. Avizinhou-se da casa, bateu, tentou forçar a porta. Encontrando resistência, penetrou num cercadinho cheio de plantas mortas, rodeou a tapera, alcançou o terreiro do fundo, viu um barreiro vazio, um bosque de catingueiras murchas, um pé de turco e o prolongamento da cerca do curral. Trepou-se no mourão do canto, examinou a catinga, onde avultavam as ossadas e o negrume dos urubus. Desceu, empurrou a porta da cozinha. Voltou desanimado, ficou um instante no copiar, fazendo tenção de hospedar ali a família. Mas chegando aos juazeiros, encontrou os meninos adormecidos e não quis acordá-los. Foi apanhar gravetos, trouxe do chiqueiro das cabras uma braçada de madeira meio roída pelo cupim, arrancou touceiras de macambira, arrumou tudo para a fogueira.
Nesse ponto Baleia arrebitou as orelhas, arregaçou as ventas, sentiu cheiro de preás, farejou um minuto, localizou- os no morro próximo e saiu correndo.
Fabiano seguiu-a com a vista e espantou-se uma sombra passava por cima do monte. Tocou o braço da mulher, apontou o céu, ficaram os dois algum tempo agüentando a claridade do sol. Enxugaram as lágrimas, foram agachar-se perto dos filhos, suspirando, conservaram-se encolhidos, temendo que a nuvem se tivesse desfeito, vencida pelo azul terrível, aquele azul que deslumbrava e endoidecia a gente. Entrava dia e saía dia. As noites cobriam a terra de chofre. A tampa anilada baixava, escurecia quebrada apenas pelas vermelhidões do poente.
Miudinhos, perdidos no deserto queimado, os fugitivos agarraram-se, somaram as suas desgraças e os seus pavores. O coração de Fabiano bateu junto do coração de Sinha Vitória, um abraço cansado aproximou os farrapos que os cobriam. Resistiram a fraqueza, afastaram-se envergonhados, sem ânimo de afrontar de novo a luz dura, receosos de perder a esperança que os alentava.
Iam-se amodorrando e foram despertados por Baleia, que trazia nos dentes um preá. Levantaram-se todos gritando. O menino mais velho esfregou as pálpebras, afastando pedaços de sonho. Sinhá Vitória beijava o focinho de Baleia, e como o focinho estava ensangüentado, lambia o sangue e tirava proveito do beijo. Aquilo era caça bem mesquinha, mas adiaria a morte do grupo. E Fabiano queria viver. Olhou o céu com resolução. A nuvem tinha crescido, agora cobria o morro inteiro. Fabiano pisou com segurança, esquecendo as rachaduras' que lhe estragavam os dedos e os calcanhares.
Sinhá Vitória remexeu no baú, os meninos foram quebrar uma haste de alecrim para fazer um espeto. Baleia, o ouvido atento, o traseiro em repouso e as pernas da frente erguidas, vigiava, aguardando a parte que lhe iria tocar provavelmente os ossos do bicho e talvez o couro.
Fabiano tomou a cuia, desceu a ladeira, encaminhou-se ao rio seco, achou no bebedouro dos animais um pouco de lama. Cavou a areia com as unhas, esperou que a água marejasse e, debruçando-se no chão, bebeu muito. Saciado, caiu de papo para cima, olhando as estrelas, que vinham nascendo. Uma, duas, três, quatro, havia muitas estrelas, havia mais de cinco estrelas no céu. O poente cobria-se de cirros - e uma alegria doida enchia o coração de Fabiano. Pensou na família, sentiu fome. Caminhando, movia-se como uma coisa, para bem dizer não se diferençava muito da bolandeira de seu Tomás. Agora, deitado, apertava a barriga e batia os dentes. Que fim teria levado a bolandeira de seu Tomás?
Olhou o céu de novo. Os cirros acumulavam-se, a lua surgiu grande e branca. Certamente ia chover.
Seu Tomás fugira também, com a seca, a bolandeira estava parada. E ele, Fabiano, era como a bolandeira. Não sabia por que, mas era. Uma, duas, três, havia mais de cinco estrelas no céu. A lua estava cercada de um halo cor de leite. Ia chover. Bem. A catinga ressuscitaria, a semente do gado voltaria ao curral, ele, Fabiano, seria o vaqueiro daquela fazenda morta. Chocalhos de badalos de ossos animariam a. solidão. Os meninos, gordos, vermelhos, brincariam no chiqueiro das cabras, Sinhá Vitória vestiria saias de ramagens vistosas. As vacas povoariam o curral. E a catinga ficaria toda verde.
Lembrou-se dos filhos, da mulher e da cachorra, que estavam lá em cima, debaixo de um juazeiro, com sede. Lembrou-se do preá morto. Encheu a cuia, ergueu-se, afastou-se, lento, para não derramar a água salobra. Subiu a ladeira. A aragem morna acudia os xiquexiques e os mandacarus. Uma palpitação nova. Sentiu um arrepio na catinga, uma ressurreição de garranchos e folhas secas.
Chegou. Pôs a cuia no chão, escorou-a com pedras, matou a sede da família. Em seguida acocorou-se, remexeu o aió, tirou o fuzil, acendeu as raízes de macambira, soprou-as, inchando as bochechas cavadas. Uma labareda tremeu, elevou-se, tingiram-lhe o rosto queimado, a barba ruiva, os olhos azuis. Minutos depois o preá torcia-se e chiava no espeto de alecrim.
Eram todos felizes. Sinhá Vitória vestiria uma saia larga de ramagens. A cara murcha de sinhá Vitória remoçaria as nádegas bambas de Sinhá Vitória engrossaria a roupa encarnada de Sinhá Vitória provocaria a inveja das outras caboclas.
A lua crescia, a sombra leitosa crescia, as estrelas foram esmorecendo naquela brancura que enchia a noite. Uma, duas, três, agora havia poucas estrelas no céu. Ali perto a nuvem escurecia o morro.
A fazenda renasceria - e ele, Fabiano, seria o vaqueiro, para bem dizer seria dono daquele mundo.
Os troços minguados ajuntavam-se no chão: a espingarda de pederneira, o aió, a cuia de água o baú de folha pintada. A fogueira estalava. O preá chiava em cima das brasas.

Uma ressurreição. As cores da saúde voltariam à cara triste de Sinhá Vitória. Os meninos se espojariam na terra fofa do chiqueiro das cabras. Chocalhos tilintariam pelos arredores. A catinga ficaria verde. Baleia agitava o rabo, olhando as brasas. E como não podia ocupar-se daquelas coisas, esperava com paciência a hora de mastigar os ossos. Depois iria dormir.

3 comentários:

  1. Pedro Martins15 de maio de 2016 13:38

    Adoro o livro Vidas Secas sem dúvida é leitura obrigatória. Um clássico de nossa literatura.

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    1. Aline Cristina1 de junho de 2016 08:15

      Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Leonardo Inácio de Freitas14 de novembro de 2017 06:13

      3 x 1 no mp´ínimo

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    3. Responder
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Dicas para Deficientes

Pretendo postar tudo que aprendi nestes quase 20 anos de lesão e novidades referente a melhoria de vida dos deficientes físicos.


Almofada Ortopédica: Água ou Gel



As almofadas ortopédicas são conhecidas também como: almofadas d'água, forração ortopédica, boia d'água. São utilizadas na prevenção e coadjuvante no tratamento de úlcera de pressão (escaras). Indicada para pessoas que permanecem sentadas ou acamadas por longos períodos, como cadeirantes, convalescentes de pós-operatório e pessoas com hemorroidas. Coloque as almofadas principalmente em locais de proeminências ósseas, como a região sacra, calcanhares, cotovelos, joelhos e ombros. Existe no mercado uma grande gama de tamanhos e formas, abaixo mostro as mais utilizadas (a mais comum é a quadrada de 45x45cm que se encaixa na maioria das cadeiras de rodas).
As almofadas ortopédicas são utilizadas na prevenção e coadjuvante no tratamento de úlcera de pressão, escaras
As almofadas de gel tem o mesmo propósito das de água e também são encontradas em variados tamanhos e formas, abaixo mostro as mais utilizadas.
As almofadas ortopédicas são utilizadas na prevenção e coadjuvante no tratamento de úlcera de pressão, escaras
Abaixo mostro alguns modelos interessantes, na esquerda o encosto é de ar e o assento é de água, no centro, um kit projetado para as áreas de maior atrito: a cabeça, os cotovelos, as costas e os calcanhares, na direita o encosto e o assento são de gel.
As almofadas ortopédicas são utilizadas na prevenção e coadjuvante no tratamento de úlcera de pressão, escaras
Dicas importantes:
  • encher com água somente até indicação, caso contrário a almofada se torna ineficaz;
  • só indico reparo para o primeiro furo, como emergência, pois mostra que já esta ressecada e vai começar a furar por todo lado, melhor mesmo é outra almofada (o preço do reparo não compensa);
  • jamais deixar almofada d'água dentro de carro ou no sol, infelizmente aconteceu comigo e tive queimaduras de segundo grau nas nádegas, região escrotal e pernas.
Não recomendo colchão d'água, pois balança toda hora e tem o perigo dele causar pneumonia, mas o colchão sendo preenchido de ar ou gel acredito ser uma boa. Veja foto abaixo:
As almofadas ortopédicas são utilizadas na prevenção e coadjuvante no tratamento de úlcera de pressão, escaras
Por um bom tempo usei um travesseiro d'água de 60x40cm dentro dum recorte que fiz em meu colchão, hoje em dia uso um travesseiro de viscoelástico, no dia a dia uso uma almofada quadrada de 45x45cm em minha cadeira de rodas comum que uso para o banho.

8 comments:

ana manzini disse...

onde comprar o encosto de gel para cabeca?

Roberto disse...

em uma boa casa ortopédica, geralmente em cidades grandes.

anabelle disse...

Olá. Estou de cama. Não posso sentar pq estou com um problema grave de hemorróidas e tentarei cirurgia. Penso em tentar umas dessas almofadas para poder sentar um pouco mas não sei qual seria a melhor para mim. Látex, gel, borracha. Se tiver alguma dica seria legal. Um abraço! E tudo de bom pra você.

anabelle disse...

Olá. Estou de cama. Não posso sentar pq estou com um problema grave de hemorróidas e tentarei cirurgia. Penso em tentar umas dessas almofadas para poder sentar um pouco mas não sei qual seria a melhor para mim. Látex, gel, borracha. Se tiver alguma dica seria legal. Um abraço! E tudo de bom pra você.

Maria Lucia disse...

Como fazer reparo na forração ortopédica de gel

Maria Lucia disse...

Como fazer reparo na forração ortopédica de gel

Marcela Roseguini disse...

Boa tarde.
Gostaria de saber como fazer o remendo, da minha mae esta vazando bem na costura.

Armlook disse...

Obrigado!

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MD.Saúde
Rash de peleDermatologia

DERMATITE ATÓPICA – Sintomas, Causas e Tratamento

A dermatite atópica é uma lesão de pele que parece uma alergia, mas não é.

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A dermatite atópica, também conhecida como eczema atópico, é um problema de pele comum em bebês e crianças, mas que também pode acometer adultos.

Quando a doença foi descrita, imaginava-se que ela era uma espécie de alergia da pele, relacionada a outras atopias, como a rinite alérgica, asma e a alergia alimentar; daí o nome dermatite atópica.

Porém, estudos recentes têm mostrado que o eczema atópico não é uma doença alérgica. Ele parece surgir por conta de um defeito genético em uma proteína da pele, o que facilita o surgimento de inflamação crônica e sintomas, como coceira, descamação, pele seca e vermelhidão local.

Neste artigo vamos explicar a dermatite atópica, abordando as suas causas, sintomas e tratamento.

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Se você está à procura de outras formas de alergia de pele, acesse os links abaixo:
– ALERGIA NA PELE.
– ALERGIA A ALIMENTOS.
– URTICÁRIA.
– DERMATITE DE CONTATO.
– DERMATITE SEBORREICA.

O que é a dermatite atópica

Como referido na introdução do texto, o eczema atópico parece ser uma doença inflamatória da pele provocada por um ou mais defeitos genéticos em suas proteínas. A descoberta desses defeitos tem feito com que se abandone a teoria de que a dermatite atópica seja um processo de origem alérgica.

Como todos sabemos, a pele é o órgão responsável por criar uma barreira entre o interior do nosso corpo e o meio externo. Ela é a nossa primeira linha de defesa contra agressões do meio ambiente. Uma pele intacta impede que micróbios e substâncias irritantes consigam alcançar o interior do nosso organismo.

A permeabilidade da pele é determinada por uma complexa interação entre proteínas e células naturais da própria pele. Qualquer pertubação destes componentes, seja através de defeitos genéticos, traumas, diminuição da umidade, alteração de pH ou infecção, pode interferir com a capacidade da epiderme agir como uma barreira efetiva. A quebra da barreira da pele permite que os incontáveis agentes irritantes do meio ambiente possam penetrá-la e entrar em contato com as células do sistema imunológico que ficam localizado logo abaixo da pele. Essa interação entre substâncias irritantes absorvidas e o sistema imunológico leva à liberação de mediadores pró-inflamatórios, produzindo os achados clínicos e patológicos de dermatite atópica.

Da mesma forma que a quebra da barreira e o aumento da permeabilidade facilitam a invasão por substâncias irritantes, ela também permite uma maior evaporação da água da pele, deixando-a mais ressecada. O ressecamento provoca rachaduras na pele, o que colabora ainda mais para a quebra da barreira contra o meio externo, exacerbando os sintomas da dermatite atópica. Cria-se, assim, um ciclo vicioso.

Sintomas da dermatite atópica

A dermatite atópica é uma doença típica de bebês e crianças, mas pode também ocorrer nos adultos. 85% dos casos surge nos primeiros 4 anos de vida; em mais da metade destes, a inflamação desaparece sozinha com o passar dos anos. Até a adolescência, cerca de 60 a 80% dos pacientes já não apresentam mais eczema.

Em geral, os adultos com dermatite atópica são indivíduos que trazem a doença desde a infância. Apenas 1% dos adultos apresenta dermatite atópica com início após a adolescência.

O eczema atópico pode ser divido em três estágios:

– Fase infantil (3 meses a 2 anos de idade).
– Fase pré-puberal (2 a 12 anos de idade).
– Fase adulta (a partir de 12 anos de idade).

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O quadro clínico da dermatite atópica muda conforme a fase da doença.

1- Na fase infantil, o quadro é de lesões avermelhadas, descamativas, com crostas e intenso prurido. As faces extensoras das articulações, como cotovelos e joelhos, o rosto e o couro cabeludo são os locais mais afetados. Em alguns casos, as lesões podem ser bem extensas e ocupar boa parte da superfície da pele.

Curiosamente, a área coberta pelas fraldas costuma ser poupada. Na fase mais aguda das lesões podem haver vesículas (pequenas bolhas) e eliminação de material purulento.

Dermatite atópica
Dermatite atópica na face flexora do cotovelo (fossa cubital)

2- Na fase pre-puberal, além da vermelhidão e da coceira intensa, é também muito comum um espessamento da pele em forma de placas ásperas nas faces flexoras das articulações, como a fossa cubital (fossa do cotovelo) e fossa poplítea (fossa do joelho). Pescoço, punhos e tornozelos também são frequentemente acometidos. Nesta fase, a pele apresenta-se bastante ressecada e são comuns as feridas provocadas pelo ato de coçar.

3- Na fase adulta, as lesões da dermatite atópica tendem a ser bem espessadas e pruriginosas. O eczema pode ficar restrito às mãos e aos pés, mas o pescoço, a fossa cubital e a fossa poplítea também são aéreas frequentemente acometidas. O ressecamento difuso da pele é outro sinal bastante comum.

Geralmente, o eczema atópico é um quadro inflamatório da pele que vai e volta, podendo haver intervalos de meses ou anos entre uma crise e outra.

O eczema pode provocar uma comichão intensa, e o ato de coçar a lesão pode deixá-la ainda irritada e pruriginosa. A coceira pode levar a lesões da pele pela unha, o que facilita a invasão e contaminação das feridas por bactérias, principalmente o Staphylococcus aureus.

A dermatite atópica não é uma doença contagiosa. Pode-se tocar as lesões à vontade que não há nenhum risco de transmissão.

Tratamento da dermatite atópica

O objetivo do tratamento da dermatite atópica visa o controle da coceira, a redução da inflamação da pele e prevenção das recorrências.

Um dos primeiros passos no controle do eczema atópico é eliminar fatores que favorecem o agravamento das lesões, tais como:

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– Calor, suor ou ambientes secos.
– Estresse ou ansiedade.
– Mudanças bruscas de temperatura.
– Exposição a certos produtos químicos ou soluções de limpeza, incluindo sabões e detergentes, perfumes, cosméticos, cloro da piscina, roupas de lã ou fibras sintéticas, poeira, areia ou fumaça de cigarro.

A hidratação da pele é outra medida necessária para aliviar o eczema. Hidratantes pobres em água, como Eucerin, Cetaphil e Nutraderm, devem ser usados diariamente após o banho. Vaselina é outra opção válida.

O uso tópico de cremes contendo corticoides é bastante útil para reduzir a irritação da pele. O uso de corticoides tópicos, porém, deve ficar restrito às fases agudas e durar poucos dias para evitar efeitos colaterais. Quando o tratamento com cremes é necessário por mais de 3 semanas, o ideal é evitar os corticoides e usar produtos à base de tacrolimos ou pimecrolimos (leia: CORTICOIDES | Efeitos colaterais).

Em caos de eczemas graves e de difícil controle, o uso de corticoides por via oral pode ser indicado por alguns dias.

A fototerapia, tratamento com raios ultra-violeta, é bastante eficaz no controle do eczema. Porém, trata-se de um tratamento caro, que aumenta o risco de câncer de pele e provoca envelhecimento precoce, motivo pelo qual ele costuma ficar restrito apenas aos casos graves e de difícil controle.

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